Atahualpa y Us Panquis – a banda mais anárquica e iconoclasta do rock gaúcho
O Atahualpa y Us Panquis surgiu em Porto Alegre no outono de 1984, como um dos grupos mais anárquicos, irreverentes e iconoclastas do rock brasileiro. Idealizada pelo produtor e agitador cultural Carlos Eduardo Miranda (“Gordo Miranda”), a banda era uma paródia antropofágica que unia a solenidade do folclorista argentino Atahualpa Yupanqui ao niilismo urbano dos punks, com pitadas de noise, atonalismo, música serial e sátira política[reference:1][reference:4]. A definição mais precisa veio do próprio Jimi Joe, que batizou o grupo “homenageando um grande violonista argentino fazendo um trocadilho com o seu nome”reference:5.
Formação e primeiros anos
A primeira formação do Atahualpa reunia Jimi Joe (guitarra e voz), Carlos Eduardo Miranda (teclados e voz), Paulo Mello (baixo) e Fernando Paiva (bateria). Os ensaios aconteciam na garagem de Miranda e os primeiros shows limitaram-se a uma ou duas apresentações no extinto bar Taj Mahal, onde o baterista Paiva logo abandonou a “encrenca”[reference:2][reference:7]. Em seu lugar entrou Castor Daudt, que mais tarde se tornaria integrante do DeFalla. Ao longo de 1984 e 1985, o grupo passou por diversas mutações: Paulo Mello foi substituído por Flávio “Flu” Santos (baixo) e depois por Carlo Pianta em alguns shows, enquanto o guitarrista Paulo Nequete e Edu K chegaram a participar de esporádicas apresentações e de sessões do futuro disco. Castor Daudt resume o caos criativo com uma frase certeira: “O Miranda formou o ATAHUALPA com o Jimi Joe, com o Paulo Mello no baixo e o tal do ‘Paiva’ na batera lá por 1984… O esperto do Paiva abandonou esta encrenca rapidinho e chamaram o único idiota que aceitaria tocar bateria numa barbaridade destas: eu!”[reference:2].
Em 14 de julho de 1984, a banda participou da pré‑estreia da Terreira da Tribo – o espaço que se tornaria um dos templos da contracultura porto‑alegrense – ao lado de Replicantes, Fluxo, Urubu Rei e Prisão de Ventre[reference:3]. Em maio daquele ano, o Atahualpa já havia integrado o ciclo “Tcha Tcha Bum” na boate B-52, onde tocou ao lado de Urubu Rei e Replicantes em um evento que Marcelo Birck definiu como “o marco de lançamento” de uma geração que queria fazer “alguma coisa diferente” na Porto Alegre “bem antiquada” da época[reference:8].
Segundo Jimi Joe, em entrevista ao jornal Multiarte (1988), o Atahualpa “era uma piada. Começou como piada e continua. O Atahualpa não existe e nunca vai existir. Começamos pra gozar o punk, que recém estava chegando aqui”[reference:0]. Essa auto‑ironia não impediu que o grupo se tornasse uma plataforma para outras bandas nascentes – como Engenheiros do Hawaii e Os Replicantes – que dividiam o palco e absorviam sua energia anárquica[reference:1].
Discografia e registros históricos
Em 1985, o Atahualpa y Us Panquis estourou na coletânea Rock Garagem II com a faixa “Todo Mundo Saca” – um hino de desilusão política e existencial cantado de forma agonizante por Miranda, que se tornou um dos maiores clássicos do rock gaúcho[reference:6][reference:4]. A canção era executada em rádios e ajudou a projetar a banda no circuito nacional. Outra composição emblemática, “Sandina”, também era tocada nos shows do Atahualpa antes de ser regravada pelos Replicantes, Júlio Reny e diversos outros artistas[reference:9].
O único LP de estúdio do grupo, “Agradeça Ao Senhor”, foi lançado em 1993 pelo selo Baratos & Afins, poucos meses antes do fim da banda. O disco reuniu oito faixas de experimentalismo punk‑noise, com destaque para “O Amor”, “As Putas”, “Lá Lá Lá Lá” e a própria “Agradeça Ao Senhor”. A gravação contou com a participação de Paulo Nequete, Edu K e outros músicos que circularam pela formação[reference:2][reference:10]. O álbum foi relançado em plataformas digitais posteriormente.
Além do LP, o Atahualpa deixou registros esparsos: a música “Revolution” na coletânea Zona Mortal (1986, selo Vortex); a participação no compacto “A Vingança de Montezuma”; e as fitas demo que circulavam nos bastidores da cena. A fita solo de Miranda, “Miranda 85/86” (Vortex, 1987), que continha trilhas de vídeos e peças teatrais, é citada como um documento paralelo que ajuda a compreender a mente por trás do Atahualpa[reference:11].
Após a morte de Carlos Eduardo Miranda (22 de março de 2018), os integrantes remanescentes – Jimi Joe, Flu, Paulo Mello e Castor Daudt – se reuniram para o show de homenagem no Gravador Pub (22 de março de 2019), com Carlinhos Carneiro (Bidê ou Balde) assumindo os vocais e teclados no lugar do mentor[reference:12][reference:13]. A partir desse reencontro, a banda resolveu retomar as atividades, gravando um novo repertório que resgatava demos e músicas nunca antes registradas em estúdio. O resultado foi o disco “MiniMundo”, lançado em agosto de 2019, em show no Bar Ocidente, com Carlinhos Carneiro nos vocais. “MiniMundo” trouxe clássicos como “Sandinista”, “Os Analistas” e novas versões de “Todo Mundo Saca” e “Sandina”, encerrando um ciclo iniciado nos anos 1980[reference:14][reference:15].
Shows selecionados
- Boate B-52 / Ciclo “Tcha Tcha Bum” (Porto Alegre, 10, 17 e 24 de maio de 1984) – um dos primeiros eventos oficiais da banda, com Urubu Rei e Os Replicantes[reference:8].
- Pré‑estreia da Terreira da Tribo (Porto Alegre, 14 de julho de 1984) – show que arrecadou fundos para a construção do teatro, com Replicantes, Fluxo, Urubu Rei e Prisão de Ventre[reference:3].
- Bar Ocidente (Porto Alegre, 21 de junho de 1986) – apresentação registrada no filme “Pancadaria do Terceiro Mundo”, produzido pelo selo Vortex[reference:16].
- Ginásio do Ibirapuera? (1993 – show de lançamento de “Agradeça Ao Senhor”) – uma das últimas apresentações da banda antes da pausa.
- Gravador Pub (Porto Alegre, 22 de março de 2019) – show de homenagem a Carlos Eduardo Miranda, com Carlinhos Carneiro nos vocais[reference:12].
- Bar Ocidente (Porto Alegre, 26 de agosto de 2019) – lançamento do álbum “MiniMundo”reference:14.
- Opinião (Porto Alegre, julho de 2014) – reunião da “turma desgraçada” no show de aniversário de Jimi Joe[reference:2].
Registros principais
- LP “Agradeça Ao Senhor” (1993, Baratos & Afins) – único álbum de estúdio da fase original.
- CD “MiniMundo” (2019, independente) – reunião com Carlinhos Carneiro, resgatando músicas inéditas.
- Participação na coletânea “Rock Garagem II” (1985) – com “Todo Mundo Saca”.
- Participação na coletânea “Zona Mortal” (1986, Vortex) – com “Revolution”.
- Fita “Miranda 85/86” (1987, Vortex) – compilação de trabalhos de Carlos Eduardo Miranda, incluindo temas do Atahualpa[reference:11].
- Compacto “A Vingança de Montezuma” (selo Baratos & Afins).
Referências
- [PRESS] Entrevista Jimi Joe para o jornal Multiarte (1988) – Atahualpa “era uma piada”
- [ACERVO] Comentários da Banda Atahualpa y Us Panquis – depoimentos de integrantes históricos
- [RELEASE] Atahualpa y Us Panquis se reúne em 2019 e gera o disco MiniMundo
- [ACERVO] Flyer de divulgação da estreia da Terreira da Tribo (1984) – com Atahualpa
- Release da Baratos & Afins – “A mais chinela banda do rock gaúcho”
- [RELEASE] Atahualpa y Us Panquis e a origem da canção SANDINA
- Rock Garagem II – coletânea histórica com “Todo Mundo Saca”
- Atahualpa Y Us Panquis – biografia e discografia resumida
- [ACERVO] Flyer dos shows de New Wave e Punk Rock (1984) – Atahualpa, Urubu Rei e Replicantes
- GZH – Atahualpa y Us Panquis se reúne para prestar homenagem a Miranda (março/2019)
- Wikipédia – Carlos Eduardo Miranda
- [ALBUM] Miranda -85/86 (1987) [VORTEX] – fita solo do líder
- Atahualpa y Us Panquis – show de homenagem a Miranda no Gravador Pub (22/03/2019)
- Correio do Povo – Atahualpa y Us Panquis: show de lançamento do “MiniMundo” (ago/2019)
- GZH – Morre produtor musical Carlos Eduardo Miranda, aos 56 anos (2018)
- [RELEASE] MiniMundo: o novo disco do Atahualpa y Us Panquis (2019)
- [PRESS] Shows: Atahualpa, M16, Replicantes, Os Eles, Câmbio Negro (1986) – registro no Bar Ocidente